quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Perdão
Perdão pelo mal uso do fogo, do átomo, da água, da mulher, da matemática, da arte e do vosso santo nome que já não diz mais nada. Perdão pelo mal uso da minha esperança, tantas vezes mal direcionada para aquilo que eu não preciso e quero. E quero como se fosse a vida em si, como se fosse a Ti e a Tua natureza mais intima. E perdoe ainda mais quando não quero nada. Ou nada mais além do além vida sobre a própria vida que já nada sacia. Perdoe minha esperança atrofiada, meus braços cansados que largam a espada que cai no abismo. Porque de tanto mal uso ao não querer nada e lutar sozinho, comigo mesmo, contra mim mesmo, somado ao peso de tudo, ajudei o mal a digerir o mundo. E minha antiga luta, retrocedida agora, se parece como uma borboleta, pequena e frágil, num banquete preparado para insaciáveis mariposas.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
domingo, 25 de setembro de 2011
ABOMINÁVEL MUNDO NOVO
Agradecemos sua visita, volte sempre, sorria você está sendo filmado, venha, volte, assista, compre, seja, junte, jogue, aposte, ganhe, tenha, olhe, corra, concorra, você não pode perder, mas espere! Venha, volte, veja, compre, tenha, seja, coma, suma, curta, adquira já o seu, preencha seu cupom, concorra, peça pelo número, pegue sua senha, veja, seja, vivo, claro, compre, troque, venda, tenha, invista, insista, vista, assista, use, abuse, volte pro final da fila, aguarde a liberação da guia, participe, ligue agora, inscreva-se, aliste-se, telemarketing, merchandising, Jesus Cristo, Anti-Cristo, Inri cristo, cartões plásticos, seios plásticos, sacos plástico, consolos plásticos*, armas de destruição em massa, vaselina, penicilina, prótese peniana, massageador de pés, vibradores elétricos, centrifugadores, DVDs players, implante capilar, andaimes, concreto armado, acetato, acetona, acrílico, éter, videogames, Coca Cola, R15, B25, D2, CPM22, R2D2, 69, Missa do galo, missa de sétimo dia, missa negra, dia da árvore, dia dos mortos, dia do alcoólatra regenerado, dia da masturbação mal intencionada, dia do dia, espaçonaves, tinta pro cabelo, anticoncepcionais, remédio pra depressão, remédio pra ereção, mercearia, mini mercado, supermercado, hipermercado, big, mega, bits, bytes, soft, hard, in, out, on, welcome, status, estátuas, propagandas de modess, propagandas de bancos, propagandas de carros, propagandas de margarinas sem colesterol, propagandas de aerossol que não matam seus filhos, só os insetos, cartões de crédito, o mundo é mais chato do que redondo, jornais estancando o sangue, a fila sem fim das caixas dos supermercados com os olhos mais tristes já vistos sob os convidativos cartazes de “Vem ser feliz”. E tudo e todos. Entre jovens putas que fazem da ofensa o oficio, entre monstruosas árvores metálicas que nascem do solo e abrem-se em diferentes logotipos, entre a flatulência dos ônibus, entre as cabeças baixas e entre a tensão dos olhos que evitam se cruzar. Entre o som e a fúria, entre a desconfiança, entre os edificios e sua sombria acumpuntura sobre a Terra que se erguem em profundos abismos, entre os "siga", "pare", "atenção" dentro das muralhas pelas quais nos fizemos cobaias, entre apertos de mão, assinaturas, rubricas, testemunhas, mão no peito, mão direita levantada, mão sobre a bíblia, impressões digitais, reconhecimento de firma, comprimentos secretos, polígrafos, sinistros rituais de suspeita confiança, estranhas estrelas muchas feitas do barro, do terno e da gravata, vagando a deriva sobre gigantescas placas tectônicas como formigueiros, ante o mistério gravitacional e rotativo do núcleo. Há então, entre o concreto, o plástico, os rituais, as formalidades, as comemorações, os vicios, há a vida que percorre lentamente através de tudo, dentro de todos, como uma antiga brasa de um fogo que se extingue...
Assim como Neruda também me canso de ser homem. Estou cansado. Atravesso impenetrável as cores e o desespero que anunciam o dia. Querendo ser sem buscar estar. Pacato e insatisfeito feito um cadáver. Entre as bancas de jornais que anunciam "Quem acontece"... Quem acontece?
Acontece que não aconteço.
Estou sempre em vias de...
Prestes à...
Quase que...
A espera de um convite que irei recusar.
*Será que as moscas fazem melhor uso dos excrementos do cão do que nós fazemos com o petróleo que o planeta defeca?
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Assim como Neruda também me canso de ser homem. Estou cansado. Atravesso impenetrável as cores e o desespero que anunciam o dia. Querendo ser sem buscar estar. Pacato e insatisfeito feito um cadaver. Entre as bancas de jornais que anunciam "Quem acontece"... Quem acontece? Acontece que não aconteço. Estou sempre em vias de... prestes à...Quase que...
A espera de um convite que irei recusar.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
P(h)oder
Quando minha cachorra começa a me emputecer e eu perco a paciência, eu a ameaço e ela abaixa a cabeça e coloca o rabo entre as pernas. E eu me sinto poderoso como a Igreja Católica.
Outras vezes, só pra provocá-la enquanto eu estou comendo alguma coisa, por prazer mas mais por maldade, eu finjo que vou dar um pedaço pra ela e quando ela está prestes a abocanhar... a comida já está na minha boca. E eu me sinto poderoso como o Estado.
E ainda tem vezes que eu pego a bolinha que ela tanto gosta e fico lançando de mão em mão, de pessoa a pessoa, sem com que ela consiga sequer chegar perto dela. Eu me sinto poderoso como a Alta Sociedade.
Mas quando eu passeio com ela algumas vezes e ela diminue os passos e as patinhas traseiras se dobram e ela defeca sem licença nem cerimônia e eu, humildemente me ajoelho e recolho os excrementos da pobre coitada... Nessas vezes, meu amigo, nessas vezes eu me sinto ordinário como um ser humano.
Outras vezes, só pra provocá-la enquanto eu estou comendo alguma coisa, por prazer mas mais por maldade, eu finjo que vou dar um pedaço pra ela e quando ela está prestes a abocanhar... a comida já está na minha boca. E eu me sinto poderoso como o Estado.
E ainda tem vezes que eu pego a bolinha que ela tanto gosta e fico lançando de mão em mão, de pessoa a pessoa, sem com que ela consiga sequer chegar perto dela. Eu me sinto poderoso como a Alta Sociedade.
Mas quando eu passeio com ela algumas vezes e ela diminue os passos e as patinhas traseiras se dobram e ela defeca sem licença nem cerimônia e eu, humildemente me ajoelho e recolho os excrementos da pobre coitada... Nessas vezes, meu amigo, nessas vezes eu me sinto ordinário como um ser humano.
domingo, 22 de maio de 2011
Poema feito em algum lugar no ano 2000
Sou a antítese de tudo que existe
Sou a dimensão aberta
de um mundo em alerta
Sou o prefácio da vida
Sou o posfácio da morte
Sou teu azar
E tua sorte
Sou um detalhe no quadro
Que te deixa louco
O pouco torto
Que desnivela o todo
Sou o arrepio o da presa
e o acidente da pressa
Numa guerra fútil
sou teu fuzíl
E onde quer que pare
Repare: me viu.
Tenho de tudo um pouco
Nessa reza duvidosa
E de nada
Nada temo,
Porque até o tempo
Tenho também de sobra.
Sou a metamorfose de Kafka
Um outro monstro que aqui ficava
Sou o ciúme pelo irmão.
A fome pelo pão
Sou o epicentro da destruição
E o nome de Deus em vão.
Sou o sangue escorrido
O corpo morto erguido
A navalha que lhe abre o pescoço
Sou a fratura que expõe o osso
Sou a língua abrindo caminho
Pois sou Babel caindo
Sou aquele que rosna no seu armário
O defunto escondido entre o rosário
O sangue rubro que lhe aquece o nervo
O poema mal feito do bêbado.
Sou a dimensão aberta
de um mundo em alerta
Sou o prefácio da vida
Sou o posfácio da morte
Sou teu azar
E tua sorte
Sou um detalhe no quadro
Que te deixa louco
O pouco torto
Que desnivela o todo
Sou o arrepio o da presa
e o acidente da pressa
Numa guerra fútil
sou teu fuzíl
E onde quer que pare
Repare: me viu.
Tenho de tudo um pouco
Nessa reza duvidosa
E de nada
Nada temo,
Porque até o tempo
Tenho também de sobra.
Sou a metamorfose de Kafka
Um outro monstro que aqui ficava
Sou o ciúme pelo irmão.
A fome pelo pão
Sou o epicentro da destruição
E o nome de Deus em vão.
Sou o sangue escorrido
O corpo morto erguido
A navalha que lhe abre o pescoço
Sou a fratura que expõe o osso
Sou a língua abrindo caminho
Pois sou Babel caindo
Sou aquele que rosna no seu armário
O defunto escondido entre o rosário
O sangue rubro que lhe aquece o nervo
O poema mal feito do bêbado.
O grande bezerro de ouro
Moldado em ouro de tolo
Grande, falso e cultuado.
Em wall street e no mundo todo.
Sou a serpente pecadora
Que te ensina a soma
Sou o coito forçado
o mal que vem disfarçado
A ação da esquizofrenia
Enquanto seu outro eu ria...
Eu sou o fim da rima
E o fim da poesia.
Moldado em ouro de tolo
Grande, falso e cultuado.
Em wall street e no mundo todo.
Sou a serpente pecadora
Que te ensina a soma
Sou o coito forçado
o mal que vem disfarçado
A ação da esquizofrenia
Enquanto seu outro eu ria...
Eu sou o fim da rima
E o fim da poesia.
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