segunda-feira, 12 de março de 2012

Há quem diga que nasceu na época errada, e o pior, postam em redes sociais que nasceram na época errada, onde mais postariam em outros tempos? Gostariam de ter nascido na época de Bob Dylan, John Lennon, Woodstock, Tropicália, Che, Mafalda, mas estes também não sentiam o mesmo? Não sentiram a inadequação para que fervilhasse o anseio de mudança e a atitude para que mudassem uma época? Você nasceu no tempo certo, com o mundo repleto de bombas atômicas, Tio Patinhas, 200 canais de tv a sua mercê para escolher qual delas massageia mais ternamente sua massa cinzenta, vibradores elétricos com 5 velocidades diferentes, e com a Democracia defendendo com unhas e dentes o intransferível direito que você e seus ancestrais lutaram durante anos para defender: o direito de escolher o refrigerante que melhor apetece seu paladar. Quem acha que nasceu na época errada será sempre a pessoa errada para qualquer época.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Perdão

Perdão pelo mal uso do fogo, do átomo, da água, da mulher, da matemática, da arte e do vosso santo nome que já não diz mais nada. Perdão pelo mal uso da minha esperança, tantas vezes mal direcionada para aquilo que eu não preciso e quero. E quero como se fosse a vida em si, como se fosse a Ti e a Tua natureza mais intima. E perdoe ainda mais quando não quero nada. Ou nada mais além do além vida sobre a própria vida que já nada sacia. Perdoe minha esperança atrofiada, meus braços cansados que largam a espada que cai no abismo. Porque de tanto mal uso ao não querer nada e lutar sozinho, comigo mesmo, contra mim mesmo, somado ao peso de tudo, ajudei o mal a digerir o mundo. E minha antiga luta, retrocedida agora, se parece como uma borboleta, pequena e frágil, num banquete preparado para insaciáveis mariposas.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Quando te agarrarem pelo âmago e te puxarem pelo avesso para trazer a tona uma pessoa que você não é e nunca foi só pelo prazer egoista de te fazer ser como eles são, aí nem eles irão te querer mais.

domingo, 25 de setembro de 2011

ABOMINÁVEL MUNDO NOVO





Agradecemos sua visita, volte sempre, sorria você está sendo filmado, venha, volte, assista, compre, seja, junte, jogue, aposte, ganhe, tenha, olhe, corra, concorra, você não pode perder, mas espere! Venha, volte, veja, compre, tenha, seja, coma, suma, curta, adquira já o seu, preencha seu cupom, concorra, peça pelo número, pegue sua senha, veja, seja, vivo, claro, compre, troque, venda, tenha, invista, insista, vista, assista, use, abuse, volte pro final da fila, aguarde a liberação da guia, participe, ligue agora, inscreva-se, aliste-se, telemarketing, merchandising, Jesus Cristo, Anti-Cristo, Inri cristo, cartões plásticos, seios plásticos, sacos plástico, consolos plásticos*, armas de destruição em massa, vaselina, penicilina, prótese peniana, massageador de pés, vibradores elétricos, centrifugadores, DVDs players, implante capilar, andaimes, concreto armado, acetato, acetona, acrílico, éter, videogames, Coca Cola, R15, B25, D2, CPM22, R2D2, 69, Missa do galo, missa de sétimo dia, missa negra, dia da árvore, dia dos mortos, dia do alcoólatra regenerado, dia da masturbação mal intencionada, dia do dia, espaçonaves, tinta pro cabelo, anticoncepcionais, remédio pra depressão, remédio pra ereção, mercearia, mini mercado, supermercado, hipermercado, big, mega, bits, bytes, soft, hard, in, out, on, welcome, status, estátuas, propagandas de modess, propagandas de bancos, propagandas de carros, propagandas de margarinas sem colesterol, propagandas de aerossol que não matam seus filhos, só os insetos, cartões de crédito, o mundo é mais chato do que redondo, jornais estancando o sangue, a fila sem fim das caixas dos supermercados com os olhos mais tristes já vistos sob os convidativos cartazes de “Vem ser feliz”. E tudo e todos. Entre jovens putas que fazem da ofensa o oficio, entre monstruosas árvores metálicas que nascem do solo e abrem-se em diferentes logotipos, entre a flatulência dos ônibus, entre as cabeças baixas e entre a tensão dos olhos que evitam se cruzar. Entre o som e a fúria, entre a desconfiança, entre os edificios e sua sombria acumpuntura sobre a Terra que se erguem em profundos abismos, entre os "siga", "pare", "atenção" dentro das muralhas pelas quais nos fizemos cobaias, entre apertos de mão, assinaturas, rubricas, testemunhas, mão no peito, mão direita levantada, mão sobre a bíblia, impressões digitais, reconhecimento de firma, comprimentos secretos, polígrafos, sinistros rituais de suspeita confiança, estranhas estrelas muchas feitas do barro, do terno e da gravata, vagando a deriva sobre gigantescas placas tectônicas como formigueiros, ante o mistério gravitacional e rotativo do núcleo. Há então, entre o concreto, o plástico, os rituais, as formalidades, as comemorações, os vicios, há a vida que percorre lentamente através de tudo, dentro de todos, como uma antiga brasa de um fogo que se extingue...

Assim como Neruda também me canso de ser homem. Estou cansado. Atravesso impenetrável as cores e o desespero que anunciam o dia. Querendo ser sem buscar estar. Pacato e insatisfeito feito um cadáver. Entre as bancas de jornais que anunciam "Quem acontece"... Quem acontece? 
Acontece que não aconteço. 
Estou sempre em vias de... 
Prestes à...
Quase que... 
A espera de um convite que irei recusar.




*Será que as moscas fazem melhor uso dos excrementos do cão do que nós fazemos com o petróleo que o planeta defeca?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Assim como Neruda também me canso de ser homem. Estou cansado. Atravesso impenetrável as cores e o desespero que anunciam o dia. Querendo ser sem buscar estar. Pacato e insatisfeito feito um cadaver. Entre as bancas de jornais que anunciam "Quem acontece"... Quem acontece? Acontece que não aconteço. Estou sempre em vias de... prestes à...Quase que...
A espera de um convite que irei recusar.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Triste essa gente que faz coisa que não deve em troca de coisa que não precisa. Gente que se priva da vida após a morte por falta de essencia e que cultiva a morte em vida pra embelezar o invólucro. E tudo que oferece é o osso que corroe, a carne que apodrece, a tinta que escorre...

P(h)oder

Quando minha cachorra começa a me emputecer e eu perco a paciência, eu a ameaço e ela abaixa a cabeça e coloca o rabo entre as pernas. E eu me sinto poderoso como a Igreja Católica.

Outras vezes, só pra provocá-la enquanto eu estou comendo alguma coisa, por prazer mas mais por maldade, eu finjo que vou dar um pedaço pra ela e quando ela está prestes a abocanhar... a comida já está na minha boca. E eu me sinto poderoso como o Estado.

E ainda tem vezes que eu pego a bolinha que ela tanto gosta e fico lançando de mão em mão, de pessoa a pessoa, sem com que ela consiga sequer chegar perto dela. Eu me sinto poderoso como a Alta Sociedade.

Mas quando eu passeio com ela algumas vezes e ela diminue os passos e as patinhas traseiras se dobram e ela defeca sem licença nem cerimônia e eu, humildemente me ajoelho e recolho os excrementos da pobre coitada... Nessas vezes, meu amigo, nessas vezes eu me sinto ordinário como um ser humano.