quinta-feira, 20 de junho de 2013

Saudade


Esse assincronismo entre o tempo e o espaço,

essa inimizade entre o corpo e a alma, 
esse vasculhar nas sombras as alegrias sem contorno 
como quem procura bitucas de cigarro no cinzeiro da lembrança. 

É tentar ensinar equação ao coração e literatura a razão. 
É estar exposto por dentro ao avesso de fora.

É se refazer inteiro no membro desfeito.

É chorar garganta abaixo o percurso do sangue por onde naufraga o peito. 

terça-feira, 4 de junho de 2013

Eu, que 15% de mim aos Domingos de manhã é profeta do apocalipse. 
Eu, que me sinto mais perfeito quanto menos me percebo. 
Eu, que no silencio pressinto uma sombria desventura ao mundo. 
Eu, que sou mais triste do que útil.
Eu, que busco morrer mais leve do que nasci.
Eu, que vim do fundo do barro e que hoje me enrosco em fibras óticas. 
Eu, que sou capitão de um continente em motim a deriva.
Eu, que tropeço nas fronteiras das cartas geográficas. 
Eu, que possuo meus alvarás de existência em dia.
Eu, que patético me concebo o herói hipotético.
Eu, que nasci com nome, número e cú atarraxado na carne.
Eu, que igual a todos suporto uma alma que sofre de amplitude e que não se cabe muita coisa.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Todo riso é reza
Todo livro é sagrado
Toda pedra é preciosa

E todo poeta é um vendedor de consolos plásticos

terça-feira, 21 de maio de 2013

Vejo, sinto, percebo, sei e sou, de modo que tudo é real. 

Aliso o plástico e sinto sua superfície deslizante, o papel, as funções pré-estabelecidas das coisas úteis e inuteis, sinto e ouço as moedas que balançam nos meus bolsos enquanto ando sob o sol que me circula e acaricia enquanto despeja minha sombra. Vejo e analiso o vai e vem das coisas e dos homens e tudo é demasiadamente compacto e pulsante, tudo são cores e sons, de modo que tudo é demasiadamente real, a buzina dos carros, o som que há fora e dentro de mim, as vitrines e a loucura estática das coisas, o cigarro e a fumaça na mão do motorista que aguarda o semáforo abrir, e em tudo há culpa, beleza e angustia. Erguem as mãos aos céus em louvor a nicotina, o açúcar, o álcool, o alumínio e a soda caustica. O suor escorre das têmporas do homem que caça o pão e o esquecimento de cada dia. E sei, por que dizem, dos milagres do mundo. Uma menina nasceu na Índia com 4 braços e 4 pernas. Um B 52 sub-sônico americano rasga os céus e dirige-se ao Oriente Médio. Aumenta a produção e o consumo de fluoxetina no mundo. ONU sugere dieta de insetos contra a fome. Em Israel descobriram uma piramide submarina. Britânicos começam evacuação da Líbia. Ocorreram 3 explosões solares em menos de 24 horas. Há 549.577 presidiários no país.... E há sobretudo em toda parte um eterno sussurrar de ventos e grandes nuvens, que talvez sejam os nossos mortos. E como tudo é milagre: uma senhora de óculos de graus de grandes lentes, lenço na cabeça, e rugas que lembram imagens do Grand Canyon capturadas a 500 metros de altitude pelo google earth, cujo rosto talvez seja o trecho desconhecido de um mundo repleto de raças, de guerras, e de credos, de injustiças e tardias redenções, embrulha peixes com o jornal de anteontem, onde uma das matérias fala sobre um homem de 35 anos que abriu-se para a morte pelos pulsos cortados. Uma outra, sem camisa exibe os seios murchos pelo paletó velho e sujo entreaberto, enquanto vocifera contra quem passa no terminal metropolitano "filho da puta", grita, enquanto pombas indecisas sobre o próximo passo, num momento de súbita espontaneidade levantam voo de curta distancia e pousam, e retomam a decidir com dificuldade o próximo passo. Um homem executa suas perversões sexuais planejadas durante a semana no trabalho, num comodo escuro, mas tem receio de que algum parente já falecido o esteja assistindo. Uma outra chora por amor na escadaria de um edifício, por onde a senhora com os peixes sobe, inabalável, ante o olhar de espanto e condolências de 5 sardinhas mortas, repletas de sentimento. Num poste o bêbado se agarra como quem agarra a própria vida, uma quantidade real e alarmante de sua bile começa a petrificar em sua calça e ao pé do poste, e sua função é servir de consolo para quem passa. O mundo acaba a todo instante e volta a se recompor no segundo seguinte. 
Uma criança em algum outro canto corre, e nos seus olhos tímidos contém o universo num malabarismo cósmico e seu segredo eletrônico silencioso, e ela sorri para quem compreende. E nesse momento há sempre um receio de que Deus se distraia. As tantas rotações da Terra fizeram o sol desbotar um pouco o mundo, mas minha alma encharca e permeia tudo como se fosse invisível... 

Nossos passos continuam a girar o planeta em espiral infinito adentro, e a realidade não tem grandes lapsos nem permissões para que isso seja maior ou menor do que é. 
Os primeiros átomos, as moléculas de hidrogênio e éter, nuvens de gás e pó, as primeiras estrelas, o Big Bang que explode ainda, e que um dia irá se apagar, o tempo, o espaço, as culturas, a história, uma folha ou uma bomba que cai, cada qual com o seu propósito, e a mecânica elementar da vida (e tudo é a vida), é compacta e absurda como os olhos de 5 sardinhas mortas embrulhadas no jornal de anteontem.

Vemos, sentimos, percebemos, sabemos e somos, de modo que tudo é real.

Mas quando a noite nos lembra que a vida dorme e a morte acorda, no desgaste dos corpos há um desbotar de cores, um abafar de vozes, e o drama de toda uma vida se recolhe como uma quieta implosão, como uma música que vai chegando ao fim, 
anunciando o perdão da matéria e o fim inevitável de tudo, e nos resta apenas esse rufar de tambores ao longe que vai desaparecendo aos poucos, que é o meu coração ligado a todos os corações, como uma rede neural de 7 bilhões de conexões pulsantes no córtex cerebral de um Deus que lentamente fecha seus olhos...  
De tal modo que tudo é um sonho.

Holograma

O holograma no conjunto geral talvez não consiga trazer a tona todo o sentido daquilo que ele buscar significar, mas dentro de um angulo certo, uma luz certa, um momento de equilibrio perfeito pode fazer com que todo o significante atravesse camada por camada, luz por luz, num acréscimo de sentidos que vão se acumulando num movimento estático, numa desprezivel particula de segundo, num espanto, num assombro súbito, numa epifania: rápida e carregada de razão e leveza, como um espirro, como uma concepção, como a morte.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Pouca gente sabe, mas o mundo virou do avesso depois que inventaram o espelho. E em algum lugar fora dele ainda sou a criança que passa a mão no meu rosto envelhecido, e não compreende, mas sabe. E me diz ao pé do ouvido que o dia infla e esvazia e faz de nossas sombras o nosso próprio ponteiro. E a sombra nada mais é do que o sol despejando a noite que se acumulou na gente...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

...e foi por isso que eu o matei, meritíssimo. *

Tia dela: -E me conta uma coisa: Vocês se pretendem casar?

Ela: -Sim!

Eu: -A gente só tá esperando encontrar a pessoa certa.
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Ela: - Meo, é impressionante!!! Você só ouve aquilo que você quer ouvir!!!

Eu: - Pelo nosso bem, gata, eu vou fingir que nem escutei isso.


*O titulo dos diálogos foi tirado de uma apresentação de uma comediante americana cujo nome eu não me lembro por que nunca soube. Os diálogos realmente aconteceram.
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Outros:

- Quantos anos você tem?

- Não sei, mas já se passaram 32.

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Em frente a APAE da São Carlos, um grupo de meninos que estavam dentro se aproxima do portão:

- O que você tá fazendo moço? Não entra aqui não, moço, só tem gente doida aqui, só tem maluco aqui dentro moço, não entra não...

- Você não viu como está aqui fora...