quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Entrei na Marginal Pinheiros e me apareceu alguns carros na frente algo inesperado, começou nesse instante uma perseguição implacável a 70 km/mês, para que eu pudesse alcançá-lo. Precisamos estar sempre atento aos sinais, seguir sempre o que for diferente, ter um certo respeito pelo incomum. Quem ousa entrar com cores na cidade com 50 tons de cinza, sem ser posto de gasolina ou Banco? Jesus de Scorsese viu num espalhafatoso e colorido indiano um anjo, e o seguiu. Os sinais são delicados, então é preciso delicadeza pra falar sua lingua. Estava começando a achar que o perderia de vista, e me lembrei de Galeano "A utopia é como o horizonte. Você dá um passo pra frente, o horizonte dá um passo pra trás. Você dá 2 passos pra frente, ele dá 2 passos pra trás. Então pra que serve? Pra que continuemos a andar." Pra mim o que é mais belo ainda no horizonte, é que o nosso nunca nos pertence. Tem sempre outro montado em cima, da mesma forma que eu estou montado no horizonte de outro. Ao me aproximar da minha meta móvel, percebi o olhar incomodo do motorista ao me ver tirar fotos de seu carregamento multicolor.
Mal sabia ele que roubava meu horizonte.

Olhando a janela com a Helena no colo, os Flamboyants parados no canteiro central da cidade que não acorda, pergunto a ela se ela vê como as coisas todas estão em movimento e ela me responde com sua linguagem sem abecedário, a linguagem que ela inaugurou, que sim. Como será esse flamboyant pra ela revisitado dentro de alguns anos? A gigantesca casa da minha tia diminuiu da minha infancia pra ca, algumas esquinas tb, as praias que eu ia e voltava diminuia com os anos e com as ondas. As fachadas das casas, os quintais, as praças, as pedras, tudo foi perdendo volume.
Onde foram parar as coisas que diminuíram tanto enquanto eu cresci tão pouco?
Em quantos anos o mundo não caberá na Helena?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sonhos

Estava em uma casa escura, com tons marrons e azuis escuros, luzes de amarelo claro contornavam pouco as paredes de forma aleatória. A casa tinha poucos cômodos, uma parte bem iluminada era um banheiro lateral que ficava rente à parede onde um criado mudo sustentava uma televisão sem sintonia, que chamuscava luzes avulsas sobre a quase escuridão do todo. Por esse banheiro vi passar uma criança de talvez 7 anos, morena, sem camisa e de bermuda, havia uma família simples nesse cômodo gigantesco de uma casa pequena, era a casa dela.

-Acontece coisas estranhas aqui - me confessou a mãe.

E de fato acontecia. Objetos se moviam sem ajuda de nada, objetos pequenos, pentes, controles remotos, não sabia exatamente o que eu estava fazendo lá, se fui convidado para ajudar de alguma forma ou se entrei por acidente. Mas o fato é que a casa estava tomada por alguma coisa que a preenchia por inteira, como se fosse a própria alma da casa, alguma coisa que não deveria ser, ser no sentido de existir.

De repente as luzes se acenderam, agora eram brancas, e fui agarrado por alguma coisa muito forte, mas sem corpo, primeiro pelos pulsos depois pela testa e jogado sobre uma cama de colchão mole, o que dificultou ainda mais minha reação, e quando pude perceber minhas pernas também estavam imobilizadas, alguma, ou mais provavelmente, algumas coisas, estavam me prendendo completamente e eu senti aos poucos me perdendo de mim. O que me agarrava já não me agarrava por fora, mas por dentro do meu corpo, como se minha biologia fosse dividida por duas vontades: a minha que se esvaia, e a outra que se alastrava. O que antes segurava meu pulso era o que agora controlava minha musculatura, o que segurava minha testa, agora contorcia meus olhos, as pernas que já foram minhas já não eram mais. Desesperado e completamente dominado minha única saída agora era pra fora do sonho. Na cama, onde estava meu corpo real, fora do sonho se contorcia também, e eu perdido nesse limbo, sem controle do meu mundo real com meu corpo real, ainda não completamente desperto, e no meu mundo do sonho sendo devorado por dentro e me perdendo cada vez mais de mim por entidades demoníacas. Até que aos poucos fui rastejando desta invasão para o meu consciente desperto. Mas o mais curioso disso ainda estava por vir. Quase desperto senti de forma lúcida o edredom que cobria minha perna sendo puxado para cima, confesso que tudo ocorreu de forma rápida e que eu também estava me remexendo muito por conta do ataque, mas meu movimento no momento não justificaria o edredom sento puxado a ponto de descobrir minha perna, e a Malu que dormia ao meu lado não se mexia, apesar de que mais tarde percebi que ela também teve um sono inquieto, mas vamos considerar a possibilidade que ela se mexeu para não abrir mais um mistério, além do que aquele que eu ainda vou lhes contar. Antes disso também pude ver que havia vultos passeando freneticamente entre o corredor do nosso quarto quando estava quase ou talvez já desperto, mas também podemos considerar que isso foi um resquício do meu sonho, afinal eu não tive tempo de saber o que havia acontecido com a família que estava na casa.

Pela manhã, ao acordar depois de finalmente ter dormido outra vez e de ter sonhado outros sonhos, envolvendo Poços de Caldas, uma escadaria feita de grades bem espaçadas e a busca, quase no final do sonho, de uma mulher chamada Áurea, que na vida real eu conheço, mas que no sonho não consegui encontrar a tempo antes de acordar.

A Malu acordou e conversamos sobre os nossos sonhos. Contei apenas o primeiro, por achar pouco importante o segundo, e foi então que ela me confessou que durante meu sonho ela chegou a acordar e se espantou comigo falando enquanto dormia, uma outra língua, perguntei a ela se era realmente uma outra língua ou se eu simplesmente balbuciei alguma coisa, ela então tentou imitar o que eu falei e não era um balbuciar. Era uma linguagem clara apesar de desconhecida pra mim e num tom bastante audível, com dicção baseada mais na base da língua do que nas cordas vocais, a principio pensei se tratar de hebraico apesar de não ter o “r” arrastado, mas não tenho conhecimento para afirmar nada, nem para supor.

E então ela me contou sobre o seu sonho: ela se encontrava numa casa em Poços de Caldas que a principio estava vazia, onde começou a conversar normalmente com uma cabeça putrefata sem corpo, mais tarde, a mesma casa estava em festa com muitas pessoas e dentre essas pessoas ela encontrou uma professora que estimava muito na faculdade e que nunca mais encontrou. Seu nome era Áurea.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Diálogos para um livro que ainda vou escrever

Garçonete: - O que vão querer?

Ela: - Um capuccino, bem docinho. Como eu. Por favor. - sorriu sem mostrar os dentes.

Garçonete: - E o senhor?

Ele: - Um café. Amargo.

Ela: - E a palavrinha mágica...?

Ele: - Abracadabra.

Ela: - Sobre o que a gente tava falando mesmo?

Ele: - Você estava falando. Sobre as coincidências da vida, sua amiga se apaixonou num cruzeiro, você disse que não se faz planos para vida, mas no entanto ela começou a pagar o cruzeiro 8 meses antes de ir.

Ela: - Isso! Mas eu me referia ao amor, não a viagem. As melhores coisas da vida nunca são planejadas.

Ele: - Acidentes nunca são planejados.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

1 ano da Helena

Filhinha, há um ano você me deu a honra e a responsabilidade de poder ajudar a edificar uma mulher. E em um ano fez finalmente eu conseguir remover o passado e o futuro de mim e me sincronizar no presente, por que é preciso ficar atento sempre, a cada segundo, é preciso não esquecer cada minúsculo (e tudo ainda é tão minúsculo) detalhe seu, que muda tão pouco, mas muda tão rápido. 
Preciso me lembrar da forma que encaixamos nossos olhos pela primeira vez junto à janela, o jeitinho que você ficava quando te dava banho, a forma que você sorri quando eu invento uma forma de transcender o seu e o meu abecedário tão pobre para um sentimento tão vasto, a maneira que sua mãozinha foi ganhando vida até se transformar numa arma perigosa, a carinha que vc faz quando te canto Caetano, o trabalho que você me deu para que eu pudesse conquistá-la, esse cheirinho da sua pele que se parece muito com seu temperamento, doce e azedinho. E a forma que você adormece sobre meu braço, que também adormece, e seu sono me enche de alívio e saudade.
A forma que, por conta de tudo isso, você preencheu minha alma e meu corpo, com um medo terrível, que eu nunca tive da vida, e desenvolve aos poucos em mim, assim como você desenvolve, uma espécie nova de coragem.
Você nascer me fez lembrar algo que eu havia esquecido há muito tempo, me lembrou que eu te amava desde quanto eu tinha o seu tamanho.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Fiz vários planos de coisas pra fazer com a Helena; tomar a primeira chuva, levá-la a rodas de samba, até levá-la ao mercado pra desenhar peixes, encontrar o meio ideal de inserir sua pequena e delicada existência à engrenagem movediça e fervilhante das cidades, queria apresentar o mundo à ela, apresentar músicas do mundo todo, várias culturas, vários costumes, várias historias. "O mundo não é feito de átomos, é feito de histórias." E esses dias dirigindo pensei na anatomia da mulher e do homem, o homem nasceu com um falo, como uma seta, e saiu a desbravar o mundo, guiado pela sua seta, a mulher por sua vez nasceu com com uma reentrância, tudo aquilo que o homem sai buscando, todo o mistério do mundo e da vida se afunila para dentro da mulher, todo o segredo que o homem busca incansavelmente, a mulher vem absorvendo com sua anatomia por milhares de anos, naturalmente. Por isso tem um sentido à mais do que nós. Por isso faz mais sentido no mundo mulher, porque mulher vem sentindo melhor o mundo. Então qual era o propósito de eu apresentar o mundo pra minha filha? Um mundo que no fundo ela já conhece melhor do que eu? Ela me admiraria por consolo, pela intenção? Claro que eu estou falando sobre estereótipos psicologicos, hj em dia a mulher é muito mais desbravadora do que nós. Talvez sempre tenham sido. De qualquer forma, estava com a Helena no colo, e mostrava pra ela pequenos pedacinhos do mundo, texturas de plantas para os seus minusculos dedos. E então eu vi, na minha pretensão de apresentar um mundo que ela já conhece, o reflexo de uma nuvem se movendo em direção à suas pupilas recém estreiadas, deslizando sobre suas íris azuis, e foi assim, querendo apresentar a Terra, que ela, sem pretensão, me apresentou o céu.

domingo, 13 de setembro de 2015

Helena

Um dia você chega em casa cansado do trabalho e ouve uma frase que te transforma em 90 kg de vertigem, equilibrada sobre as 2 pernas de uma cadeirinha de plástico. "Estou grávida", só porque sua esposa parou de fazer contas e resolveu fazer figa.
Então em 9 meses você pensa em toda a sua vida, pensa que nunca mais vai conseguir ler um livro, andar de bicicleta, fazer um quadro, escrever um texto. Em 9 meses você se transforma em homem, você se transforma em mulher, você se transforma em criança, e aos poucos, lentamente,  começa a pensar que você ganhará uma amiga. Uma amiga com quem lerá junto, andará de bicicleta, fará desenhos e te dará motivos pra escrever. Até que uma noite a luz do corredor acende, a bolsa rompe, e uma criatura minúscula dilata sua realidade de uma forma que ela nunca mais poderá voltar ao tamanho que foi, cresce algo dentro do seu peito, e de forma tão imensa, que mesmo que essa coisa seja o contrário da dor, dói. E de repente você percebe que toda a sua vida você apenas existia e um dia, sem aviso nenhum, quando você menos espera, você nasce.

Em outras palavras, ter um filho é nascer fora de si.