O propósito da arte não é de se maravilhar com o inacreditável que o olho captura, mas o de ser capturado pela inacreditável maravilha do nosso propósito.
sábado, 30 de novembro de 2013
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Leveza
Sentindo-me leve como se tivesse feito yoga com acupuntura durante um reiki numa benção de candomblé a beira do Nirvana meditativo depois de sexo tântrico com Afrodite regado a passe espirita num mundo feito de morfina, onde 4 gotas de florais de Bach me levariam diretamente para 5° dimensão na virada da Nova era de Aquário numa overdose de endorfina injetada diretamente no miocárdio ao som de Dark Side of the moon do Pink Floyd numa versão mantra budista.
domingo, 13 de outubro de 2013
Enquanto penduro cuecas no varal penso na frota imensa de arqueiros que Genghis Khan liderou e que conquistou um território de quase 2,5 vezes área do Brasil.
E eu não estava lá.
Alexandre, o Grande conquistando a Pérsia e o cú da India contra a minha atual, humilde e covarde existência, pendurando roupas intimas no cordão de nylon (nome dado graças a cooperação de uma empresa de NY e uma de Londres na produção do mesmo).
E eu não estava lá.
Na minha desajeitada emancipação sobre a Terra não participei nem do exercito macedônico nem da confecção do nylon.
Minha existência, que é uma mistura de muita opinião e pouca atitude, conduziu-me a este domingo em que penduro cuecas no varal de nylon, preparando-me para a batalha do batente e às afiadas laminas dos ponteiros à me abrir rugas na cara.
No meu coração há a estátua do herói que não fui por preguiça, onde as pombas cagam. E eu arrasto minha vida para debaixo dos tapetes dos Domingos.
Convivo submisso ao meu semelhante, que só se assemelha a mim no barulho dos passos em direção ao silencio. Convivo entre os que fazem psicanálise para poder descobrir e Yoga para poder esquecer. Que se orgulham da maturidade que há nos crediários, na conta no Banco, em pagar IPTU, INSS, FGTS, Imposto de Renda, conta de luz, gás, água, telefone, e estranha satisfação de amar muito tudo isso.
Eu que corto caminhos existenciais porque sei que é inútil o caminho. A estrada é longa demais para uma vida curta demais.
Lá fora agora, enquanto as cuecas secam há programas de auditórios. Alguém perde a virgindade. Alguém transa pela última vez. Alguém transa com uma cabra. A luz de um teatro se acende e os olhos de uma senhora se enchem de lágrimas. Uma garçonete tira migalhas da mesa e sonha. Um advogado tem uma súbita crise de consciência e se senta com as mãos sobre o rosto. Uma mulher é violentada. Uma criança alisa um gato apavorado. Alguém devolve uma carteira que caiu. Uma formiga carrega uma folha com 50 vezes seu peso. Um grupo de feministas nuas invadem o parlamento britânico. Um palhaço em pernas de pau faz malabares na Avenida na hora do rush. Um ovni abduz uma vaca. Um budista ateia fogo ao próprio corpo. Um domador de circo tem o braço amputado por um leão. Um homem pega sua esposa com outro homem na cama. Um mergulhador descobre uma civilização esquecida. Alguém leva um tiro na cara. Alguém grafita um muro. Outro faz Le Parkour. Um vê o rosto de Jesus numa torrada. Alguém é pendurado por anzóis fincados na pele das costas e sente prazer. Um cardume de peixes forma um furacão. Alguém é iniciado na Maçonaria. Uma mulher dá a luz a trigemeos. Centenas de formigas picam um índio da tribo Sateré-Mawé num ritual de masculinidade. Um pianista cego toca Play it again, Sam. Alguém morre na cadeira elétrica. Alguém desperta de um longo coma. Alguém morre de saudade. Alguém mata para ver como é a sensação. Um islamico reza para Meca. Um enfarta. Um gargalha. Alguém pula de décimo andar. Um angolano se casa com uma dinamarquesa. Joelma ensaia uma coreografia embaraçosa. Cai um meteoro no mundo. Um toureiro tem o baço perfurado. Um grupo planeja um Flash Mob num enterro. E a rede Globo ensina uma receita de bolo de Fubá.
A consciência se recolhe e me sincroniza novamente ao varal e as cuecas que não secaram.
E eu não estava aqui.
Penso sobre Genghis Khan, IPTU, morte, Nylon, Alexandre o Grande, sexo, pianistas cegos, Joelma, psicanálise, estrelas, progresso, Yoga enquanto penduro cuecas no varal.
E o que é pior do que isso, escrevo sobre tudo isso.
Tem mais de mim lá dentro do que aqui fora.
Sinto que roubei o lugar de alguém nesse mundo.
Alguém que me exerceria melhor.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
OI® nuncamais se ouviu falar.
Ninguém toma SOL® quente.
Banguela não precisa de SORRISO®.
SEMPRE LIVRE® tem código de barras.
CLARO® que com a vida cheia de marcas já não me sinto tão VIVO®.
Há mais coisas entre a SHELL® e a Terra do que supõe a tua vã idolatria.....
Por essas e outras é preciso fazer desta LONGA VIDA® INTEGRAL, e não mais tão LTDA.
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
2- Tudo é pouco e não tem tamanho, mas preenche lacunas o suficiente para não deixar espaço para que o "nada" possa existir. E por isso não existe o nada em lugar nenhum, por falta de espaço para ele. Por exemplo, uma árvore. Uma árvore não cresce aleatoriamente, ela cresce pedindo licença, deslizando, encaixando os galhos e as folhas no ar, ela cresce onde o ar permite o encaixe, por isso ela é torta igual um raio. A sua forma é predeterminada pela atmosfera. E se as vezes ela se sacode um pouco, não é o vento, é ela se acomodando dentro do contorno estabelecido. O espaço tem o caimento certo dentro do espaço, basta observar com outros olhos por exemplo um lustre de cristal encaixado na atmosfera da massa do ar.
3- As coisas que não existem estão em maioria. E é isso o que nos move.
4- Então que venha o novo por que das coisas que já existem o mundo está cheio.
5- As vezes parece que a gente já anteviu tudo o que vai acontecer. Como se tivesse antevendo uma fração de segundo antes tudo. E isso te da uma segurança como se você tivesse o controle de todas as coisas que acontecem no mundo. Ou pelo menos na parte que você esta dele. Parece que você já seguiu aquele roteiro, como se fosse um take de um filme que você ta fazendo pela décima vez, sendo que você fez outras 9 e não lembra direito como é que foi, mas numa consciência-inconsciente você sabe exatamente, e parece que você tem o controle sobre tudo. Sobre as pessoas, o lugar e as coisas, é algo extra-corpóreo, é extra-material. Por que a realidade é uma ilusão totalmente manipulável. Moldável e compacta como argila. É um poder único sincronizado com tudo a volta, e nada requer que se pense 2 vezes, nem pudor ou medo e a razão orquestra cada minúscula nuance das suas atitudes com maestria. Parece que você é o ator, o diretor, o roteirista e o próprio cenário de tudo a sua volta.
À esse poder que beira ao divino podemos dar o nome de coragem.
terça-feira, 23 de julho de 2013
Memórias
O cumprimento matinal das formigas que me adotaram na infância.
A piedade que me falta ao mundo e a coragem súbita que me toma emprestado o corpo.
Os watts/cm² que pulsam no Big Bang de todos os olhos, e a intenção de toda uma vida quando se colapsa dois universos.
Aquela cor primária e inédita que está se desbotando para dar lugar a outra no meu planeta natal.
A lua quebrada, fina e líquida de Saturno e seu percurso de rio de pedra, ou ainda,
a nossa lua, que uma vez vi derramada sob o milharal a se transformar num mar de leite fosforescente silencioso.
As primeiras histórias, o prolongado e longínquo instante em que tudo é.
O momento em que as ondas agarraram pela primeira vez meu calcanhar e a minuscula vala de areia que meus pés abriram na memória.
Um movimento da saia de um vestido, um lábio que deslizou devagar pelos dentes cerrados até se libertar na velocidade do mel.
Minha intimidade perdida com o sol que ainda hoje vem me buscar pelas grades enferrujadas.
A rápida metamorfose das coisas em combustão, a corrida plasmática do azul ao laranja na chama estática.
A antiga capacidade de derreter as pedras e de as solidificar em retas alvenarias.
A graça satânica instalada no amor a colocar movimento nos homens e nas máquinas.
A furta-cor da carapaça das varejeiras e nas asas das moscas-domésticas,
A toalha de mesa xadrez com migalhas de pão e a fumaça que sobe cheia de rodeios e que o lustre captura.
O som que vem da sala preenchendo a atmosfera com a leveza de mulheres conversando aos Domingos.
A comunhão perdida com as coisas simples e amarelas a se descascar pelas beiradas, pelas quinas discretas como antigas fotografias.
O rejunte grosso e enegrecido, o vidro trincado, a cerâmica lascada, as vidas sobrepostas no processo de tudo isso, e a lenta degradação daquilo que retorna da viagem de ser.
E a profana divindade dessas pequenas coisas todas, que tem de pecado e culpa apenas o necessário.
O desejo como a efemeridade do plástico e o esquecimento como fruta decomposta.
A varredura do horizonte móvel a colorir e desbotar os ângulos e as tangentes.
A criatividade a colocar universos em grãos de areia e microcosmos em galáxias.
O perfeito ajuste do encaixe das circunferências do eclipse solar.
A imensa pequeneza que tudo isso traz aos gestos eternamente insuficientes.
A euforia gasta dando espaço ao silêncio resignado.
E os dois tigres que subitamente se erguem simétricos,
e me espreitam por detrás do canavial de seus olhos,
antecipando um segundo sua própria existência...